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26 | 07 | 2017
FELIZ DIA DOS AVÓS

"Sabe, nesse processo tão humanamente inexorável de envelhecer, o corpo vai aos poucos desistindo de nós - a vista se cansa, os calos não dão sossego, a voz enrouquece ou vira sussurro, a coluna reclama, os ouvidos pouco escutam, o coração acelera muito ou bate menos do que deveria, os cabelos, além de perderem a cor, costumam também se perder nos ralos ou no travesseiro, a pele abandona o brilho e a lisura, as veias tornam-se salientes, a flacidez toma conta de todo o território que outrora era rijo e
forte o suficiente para se exibir sem pudor, entre muitas outras mazelas. Inevitável? É claro. Tragédia, fim? Não, apenas o recomeço. É chegada a hora em que, já maduros, nossos filhos costumam nos repetir em sua relação com os próprios filhos, e nossos netos começam a escrever a sua história. Não conseguimos acompanhar o seu ritmo acelerado, às vezes queremos nos recolher em um silêncio que eles insistem em romper, mas o que seria de nós, avós, sem a graça das estripulias, sem as risadas intermináveis, sem suas tiradas geniais que nos deleitamos em contar para todo mundo, sem a beleza da continuidade da vida que esses seres adoráveis representam? Precisamos deles para acreditar, precisamos deles para ter esperança, precisamos deles para exercitar e distribuir esse amor que se agiganta no coração dos mais velhos, porque não é mais um sentimento egoísta, agora é um amor que tem tempo para regar uma flor, admirar o voo de um pássaro, observar o mar que se perde no horizonte infinito, insurgir-se contra a injustiça, rezar para o mundo amanhecer em paz. Essas criaturinhas possibilitam o nosso renascimento diário e nos acompanharão até que a despedida se torne definitiva. Com certeza, então, Deus permitirá que, lá de cima , possamos acompanhá-los em sua caminhada até que, como nós, eles já tenham os próprios netos. Encantados, saberemos então que é apenas o milagre da renovação. E nosso espírito agradecerá porque compreenderemos que a nossa impermanência significa eternidade."

Professora Maria Dulce Machado de Aguiar